Devemos a John Dominic Crossan a defesa principal da imagem de Jesus como de um camponês do espaço mediterrânico, marcado pelo ideário da filosofia estoica e cínica, mas adaptado ao mundo rural judaico e traduzido em categorias religiosas tradicionais. «Ao invés de tomar a forma de um evento apocalíptico que ocorreria num futuro iminente, o ideal de Jesus representa um modo de vida para o presente imediato.»
Crossan, um irlandês-americano incontornável nos estudos contemporâneos sobre Jesus, apresenta-o como um mestre cínico que envia os seus discípulos numa itinerância missionária, sem mantimentos nem alforge e mendigando nas casas onde se alojavam (Mateus 10; Marcos 6; Lucas 9). Subsistem, contudo, diferenças importantes entre Jesus e os sábios itinerantes propriamente ditos. Jesus provém e atua sobretudo num mundo rural, enquanto aqueles são urbanos; os cínicos desenvolvem um programa individual, e mantinham, por exemplo, o simbolismo de andar com bastão e alforge, enquanto Jesus persegue um ideário comunitário e é muito mais informal em relação aos símbolos.
A originalidade de Jesus expressava-se em duas das suas atividades mais características: a magia e as refeições. Crossan recorre ao termo «mago» ou «mágico» e descreve-os como figuras socialmente alternativas, que exercem a sua atividade terapêutica de forma não regulada, fora do sistema religioso instituído. Jesus era, assim, fundamentalmente um outsider (“fora da curva”), mas empenhado na ressocialização dos excluídos sociais de todo o tipo. Essa era, em geral, a finalidade das ações e dos discursos parabólicos de Jesus: reintroduzir na malha da comunhão os que, por uma razão física, étnica ou moral, eram mantidos nas margens. Com esse mesmo propósito Jesus praticava uma «comensalidade aberta», onde comia com todo o gênero de pessoas, sem fazer distinção alguma (Lucas 14,15-24). A estratégia de Jesus era a combinação de uma cura gratuita com a refeição comum, produzindo um igualitarismo religioso e social que anulava as hierarquias e as fronteiras, tanto da religião judaica como do império romano. «A comensalidade, na verdade, era uma estratégia para reconstruir a comunidade camponesa sobre princípios radicalmente diferentes daqueles ditados pelo sistema de honra e vergonha, apadrinhamento e clientelismo. Ela estava baseada no ato de compartilhar de forma igualitária o poder espiritual e material, em nível mais popular.»
