Outro nome indispensável da investigação contemporânea sobre Jesus é John P. Meier, teólogo católico, professor de Novo Testamento na Universidade Católica da América, em Washington, e editor de uma das mais importantes revistas para o estudo da Bíblia,a Catbolic Biblical Quarter. O seu trabalho, que vem sendo publicado sob o título «Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico», é, por exemplo, uma das raras obras recentes que o papa Bento XVI cita na bibliografia do seu Jesus de Nazaré (2007). Quando nomeia o livro de Meier, o papa Ratzinger comenta-o deste modo: «Esta obra, em vários volumes, é, sob muitos aspectos, um modelo de exegese histórico-crítica, da qual ressaltam tanto a importância como os limites deste método de análise.» Percebemos que há, ao mesmo tempo, um elogio e um distanciamento. O que não admira, pois os objetivos de ambos são explicitamente diferentes. Enquanto Bento XVI pratica o que chama «exegese canônica», isto é, uma elaboração do perfil de Jesus com base numa harmonização dos quatro Evangelhos, John Meier procura aquele conhecimento de Jesus que o interesse histórico consegue rastrear (deixando, porém, bem claro que este conhecimento não deixa de ter limites).
John P. Meier começa por dizer que o próprio nome de Jesus deveria pôr os ouvintes de sobreaviso, visto tratar-se não de um nome comum, mas de uma denominação programática. Corresponde nada menos que a abreviatura de Ye(ho)shúa', o nome do sucessor de Moisés e do sacerdote da restauração depois do Exílio. Há, por isso, muito a esperar deste Jesus. Contudo, o contexto familiar é, ainda assim, a chave que melhor o explica: o do mundo campesino da Baixa Galileia, fortemente imbuído de religiosidade e tradições. A família de Jesus deve ser pensada à maneira oriental: como clã e rede de segurança. Isso aumenta a importância de, mais tarde, Jesus ter rompido com estes laços. A propósito da sua família, os relatos evangélicos falam de «irmãos e irmãs de Jesus» (Marcos 3, 31-35). Na opinião de Meier a interpretação mais plausível é que os irmãos e irmãs fossem legítimos. A justificação avançada é que o sentido natural do termo nunca é colocado em questão no Novo Testamento.
Quanto à alfabetização, Jesus pode ter sido um judeu trilíngue: teria falado o grego, mesmo que de modo funcional para comunicar com os gentios, e teria um conhecimento do hebraico, para lá da sua língua corrente, o aramaico. Lendo os relatos evangélicos (Lucas 4,16-30; João 7,15), constata-se que as autoridades não reconheciam em Jesus uma formação teológica e escriturística formal, mas aceitavam que ele sabia ler e comentar as Escrituras. Pode supor-se, por isso, que a sinagoga de Nazaré fosse o lugar mais provável da sua aprendizagem.
Se Jesus provém de uma sociedade eminentemente agrária, é verdade que nunca aparece descrito como camponês. Em Marcos 6,3, é classificado como tekióti, isto é, trabalhando a madeira e a marcenaria das casas, o que implicava, como podemos imaginar, habilidade e trabalho suado. Pertencia por isso ao grupo social dos que se sustentavam autonomamente com o seu ofício, situando-se um pouco acima do proletariado rural (jornaleiros e servos). Na sua juventude, a Galileia conheceu uma relativa prosperidade sob a administração do hábil político que foi Herodes Antipas, conhecido como a «raposa» (Lucas 13,32). Entre outros fatores, esta situação de relativa paz permitiu a Jesus empreender a sua missão itinerante de vários anos na Galileia e fora dela.
Jesus viveu relativamente bem integrado neste habitat, mesmo se não se ter casado constituísse um plausível elemento de diferenciação ou mesmo de marginalidade em relação à prática convencional. Aos 28 anos, porém, Jesus troca a estabilidade de Nazaré pelo contato com grupos judaicos de tendência apocalíptica e reformista, como é o caso de João Batista, de quem Jesus teria sido discípulo. Tratava-se de grupos dissidentes do judaísmo de Jerusalém que se alojavam no deserto, tentando construir daí uma religiosidade alternativa. Nesse ambiente, Jesus cumpre um período de preparação, antes de encabeçar uma missão própria que o levaria pela Galileia, Samaria, Decápole, Pereia e Judeia, anunciando a proximidade do Reino de Deus, e tomando como destinatários privilegiados os pobres, os doentes e os pecadores. Esta sua pregação não se inscrevia imediatamente na linha de um movimento social: afirmava a vinda de Deus para julgar o mundo e transformá-lo. A identificação do Reino de Deus como salvação a experimentar na história foi porventura um dos traços mais persistentes da pregação de Jesus. Este proclamou a chegada iminente do Reino por palavras e por sinais proféticos (os chamados milagres, que verdadeiramente não são milagres da natureza, mas curas).
Em síntese, para Meier, o Jesus histórico foi um judeu marginal. Uma das suas marcas mais originais é não depender das instâncias históricas que representavam a autoridade, nomeadamente a religiosa. Jesus parece atribuir a si mesmo uma autoridade que lhe seria própria. Ele não é o simples intérprete da Torah ou das tradições dos Pais, mas sim um protagonista que se tornará intrigante, para todos, pelo modo como se apresenta. No ensinamento que desenvolve, não só não apela ao prestígio dos mestres que o precederam, como contraria mesmo aquilo que se julgava fixado. Retoma, certamente, a Lei, mas à sua maneira e sem lhe parecer submetido. Em relação ao repouso sabático adota uma atitude que infringe as prescrições, tal como no que respeita à pureza ritual. Aos discípulos, com autoridade, escolhe-os e os envia, pedindo-lhes uma ligação incondicional e exclusiva à sua pessoa. Não admira que, a certa altura, todos perguntassem a si mesmos: «que significa isto?» (Lucas 4,36).
