1º Ano - Módulo 1

4 – Jesus foi um profeta escatológico?
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4 – Jesus foi um profeta escatológico?

Esta representação de Jesus tem sido intensamente trabalhada por E. P. Sanders, outro dos grandes peritos do campo bíblico na atualidade. Alguns dos seus livros, penso sobretudo em Paul and Palestinian Judaism (1977) e Jesus and Judaism (1985), são tão marcantes que estabeleceram um antes e um depois nesta concorrida área de estudo. E que diz Sanders do rosto de Jesus? Essencialmente, que o seu rosto foi o de um profeta escatológico. Jesus não era apenas um homem piedoso ou um mestre de sabedoria. Apresentava-se a si mesmo como o último enviado antes da instauração do Reino de Deus. Não só partilhava a expectativa de uma grande intervenção de Deus com vista à restauração de Israel, como radicalizava o discurso desta expectativa, defendendo que ela estava iminente. As curas e exorcismos que operava assinalam a inscrição do Reino de Deus no presente, no corpo ferido e aprisionado do presente, mas à maneira de um acontecimento que conserva a sua dimensão futura, funcionando como uma renovação escatológica do real. É certo que Jesus não curou todos os paralíticos que cruzaram o seu caminho, nem deu visão a todos os cegos, nem purificou todos os leprosos do seu tempo. Os sinais surgem como atos seletivos que testemunham uma tarefa messiânica, certamente mais vasta. Mas nesses atos singulares o leitor pode palpar uma mudança qualitativa da realidade, uma vitória sobre as fatalidades que aprisionam a existência, não como uma remota hipótese apocalíptica, mas como um fato concretizado já na ação de Jesus.

A sua mensagem era, contudo, apolítica. Jesus não procurou apoderar-se do domínio da máquina do poder, nem conspirou contra as autoridades. E é um erro pensar que Jesus contou com a oposição das autoridades judaicas devido à sua relação com a gente comum ou com camadas social e economicamente mais desfavorecidas do povo. Ele não é, por exemplo, criticado por curar, mas por fazê-lo aos sábados. A polêmica reação das autoridades judaicas visava a relação de Jesus com os pecadores ou com o que isto implicava: a dissolução da fronteira entre o puro e o impuro, entre o justo e o pecador, que faria rapidamente naufragar aquela ordem social. Jesus acreditava que o Templo atual seria destruído e reconstruído, que Jerusalém seria o centro da era messiânica, e que Ele e os discípulos estariam no comando do Israel restaurado. A sua condenação à morte foi suscitada pelo temor de que as suas ideias se tornassem um incentivo subversivo e o movimento por ele desencadeado se tornasse incontrolável.

Mas vejamos as palavras de E. P. Sanders: «Jesus pensava que os doze discípulos representavam as tribos de Israel, mas também que iriam julgá-las. Jesus estava claramente acima dos discípulos; uma pessoa que está acima dos juízes de Israel está, de fato, numa posição muito elevada. Sabemos igualmente que ele considera a sua missão de absoluta importância e que estava convencido de que a forma como as pessoas respondiam à sua mensagem era mais importante do que as outras obrigações. Jesus pensava que estava prestes a chegar o Seu Reino e que ele, Jesus, era o último enviado de Deus. Por isso, considerava-se, de certa maneira, “rei”. Entrou em Jerusalém montado num burro, evocando uma profecia sobre o rei montado num burro, e foi executado por se ter reivindicado “rei dos judeus”... Prefiro, contudo, título de “vice-rei” para a compreensão que Jesus teria de si mesmo. Deus era rei, mas Jesus representava-o e iria representá-lo no Reino futuro.

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