1º Ano - Módulo 1

6 – Jesus foi um sábio?

6 – Jesus foi um sábio?

Esta tese vem sendo defendida, com motivações distintas, deve reconhecer-se, por Elisabeth Schüssler Fiorenza e Ben Witherington. Fiorenza é um dos nomes representativos da teologia feminista e o seu programa de intenções vem assim explicitado: «Enquanto as histórias e a história de muitas mulheres dos primórdios do cristianismo primitivo não forem concebidas teologicamente como partes integrantes da proclamação do Evangelho, continuarão a ser opressivos para as mulheres os textos bíblicos e as tradições formuladas e codificadas por varões.»

Fiorenza classifica Jesus e os seus seguidores como um movimento renovador interno ao judaísmo. O movimento de Jesus era intrinsecamente sociopolítico, pois desafiava o sistema social judaico assentado nas regras rituais e de distinção com base no sexo, grandes elementos de diferenciação humana. Jesus subvertia claramente as estruturas dominantes do seu tempo construindo, por um lado, «um discipulado de iguais» e sobrepondo a utopia de uma integração universal à discriminação operada pelo sistema religioso e moral. Contudo, se Jesus tivesse de chamar-se de alguma coisa seria o de profeta da sabedoria, ou melhor, porta-voz da sabedoria divina. O movimento de Jesus, emergente e predominantemente galileu, absorvia e corporizava o antigo tráfico profético de enviados pela Sabedoria de Deus. Num segundo nível, quando se aprofunda o sentido do rosto de Jesus, ele é identificado não apenas como mensageiro, mas com a própria mensagem da sabedoria divina. E mesmo se Jesus nunca é chamado Sofia (Sabedoria), recebe títulos cristológicos e atributos como Kyrios (Senhor) e Soter (Salvador), que também foram títulos desse campo semântico. Esta coincidência de Jesus com a sabedoria desencadeia um efeito semelhante ao tratamento de Deus por mãe. A sabedoria é uma entidade feminina na definição bíblica. Designar Jesus como bandeira da sabedoria divina corresponde a um gesto insurrecional: incluir o feminino como chave fundamental para a aproximação a Jesus.
Para compreender o Jesus histórico, Ben Witherington, por sua vez, insiste na «aproximação sapiencial» a Jesus e ao seu ministério'. O tratamento que Jesus faz de Deus chamando-lhe Pai, que de modo algum é comum no Antigo Testamento, só encontra paralelo firmemente claro na chamada literatura sapiencial (Eclesiástico 23,1.4; 51,14). O reino de Deus, na dicção de Jesus, em união com a sabedoria aproxima-nos do contexto simbólico representado pelo rei Salomão. E, da mesma forma, o modo como Jesus praticava, por exemplo, os exorcismos pode ter influenciado a visão que tinha de si mesmo e a que os outros tinham dele, como sucessor de Salomão, o monarca sábio, ou, inclusive, ainda maior do que aquele. Uma das sentenças de Jesus vai nessa linha: «A rainha do sul levantar-se-á no dia do juízo contra esta geração, e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis que está aqui quem é maior do que Salomão» (Mateus 12, 42).

Durante o primeiro século da nossa era, via-se Salomão como um exorcista, e a sua sabedoria entendia-se como constituindo a chave para os exorcismos do presente. Witherington vai ainda mais longe e afirma que a imagética feminina com que Jesus se descreve a si mesmo no célebre lamento de Jerusalém (Mateus 23,37-39 e Lucas 13,34-35: «Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas») pode explicar-se apenas se Jesus se visse a si mesmo como a encarnação da sabedoria, segundo a representação que é feita desta em textos da tradição anterior (Sabedoria 8-9 e Provérbios 8-9).

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