O representante desta tendência é Marcus J. Borg, que explana uma imagem de Jesus em quatro direções: como mestre de sabedoria, profeta social, fundador de um movimento de renovação e «homem santo». Jesus recorria às formas clássicas do ensinamento para transmitir uma sabedoria alternativa. Foi também um profeta social, com grandes paralelos com os profetas da tradição bíblica. Foi, de fato, além disso, o fundador de um movimento que desafiava as fronteiras e interditos sociais do seu tempo. Mas o traço mais marcante da vida do Jesus histórico é ter sido uma personificação do Espírito, um mediador do sagrado, uma daquelas pessoas que tornam o Espírito uma realidade experiencial na história humana.
Jesus viveu intensamente em contato com o mundo do Espírito. Era um «homem santo», expressão que tem uma acepção tipificada na história das religiões. A palavra «santo» não é um adjetivo, nem nos reenvia para uma semântica ética. É aqui utilizada naquele sentido que Rudolf Otto cunhou: «santo» é um substantivo que aponta para o numinoso, o mysterium tremendum. Um «homem santo» é uma pessoa que experiencia o poder de um outro reino, o poder do Espírito. É um místico.
Tais pessoas, conhecidas em muitas culturas, podem ser homens ou mulheres, e são delegados da sua tribo ou do seu grupo humano, mediadores entre o reino do Espírito e este mundo, especialmente em ações de profecia e de cura. Moisés e Elias são os dois grandes «homens santos» do Antigo Testamento, e ambos ficaram conhecidos na tradição pelos seus encontros diretos com o transcendente e pelas manifestações prodigiosas de poder, expressas em sinais e em curas.
Que Jesus pertence a esta vertente carismática do judaísmo parece uma evidência. De acordo com os relatos dos Evangelhos, o seu ministério público começou com uma experiência de «céus abertos» e com o Espírito a descer sobre ele. Aplicou a si próprio as palavras proféticas, «o Espírito do Senhor está sobre mim» (Lucas 4,8), e referiu o Espírito como presença atuante na sua missão messiânica. Praticou disciplinas espirituais comuns aos «homens santos»: a solidão, o jejum, longas horas de oração (presumivelmente contemplativa), e até um tempo de provação no deserto. Mantinha uma profunda e contínua relação com o Espírito de Deus, a que podia chamar Deus Abba, Pai. Devido a esta experiência espiritual pessoal, Jesus fala com uma inédita autoridade. Para os seus contemporâneos, quer fossem aliados quer opositores, era conhecido como um curandeiro e exorcista, quer dizer, como alguém que mediava o poder do Espírito. Sendo um «homem santo», Jesus não deixou, nem por um momento, de estar comprometido na crise histórica do seu próprio povo. Como estudos recentes têm enfatizado, Jesus fundou um movimento de renovação dentro do judaísmo, que competiu com outras experiências reformistas. Cada uma tinha uma visão diferente do que o povo deveria ser. Jesus chamou os seus ouvintes para formarem uma «comunidade alternativa com uma consciência alternativa». Por exemplo, a integração que ele faz dos párias (marginalizados) da sociedade de então – um dos seus atos mais radicais – atesta uma identidade definida pela própria relação com Deus, em total liberdade, e não pelos padrões culturais.
É nesta ótica que Jesus substitui a prerrogativa da imitatio Dei, que era uma pedra de toque dos diversos movimentos de renovação. Em vez do mandato da antiga Lei («Sede santos; porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo» – Levítico 19,2), Jesus propõe ousadamente um novo fundamento para a vida em comunidade: «Sede misericordiosos como o vosso Pai celeste é misericordioso» (Lucas 6,36). Não há como não ver que a originalidade das suas propostas de renovação se destaca fortemente.
