A própria biografia de Géza Vermes somatiza as principais intuições deste professor de Oxford, que foi um grande mestre contemporâneo dos estudos judaicos e cristãos. Nasceu na Hungria, de pais judeus, que se converteram ao catolicismo quando Geza tinha sete anos e que, nessa ocasião, o batizaram. Anos mais tarde, os pais seriam vítimas da Shoah. Vermes envereda pela vida religiosa: é ordenado padre e prossegue os seus estudos bíblicos, primeiro em Budapeste e depois em Lovaina, onde se doutorou com uma tese, que se tornaria clássica, sobre os manuscritos do mar Morto. Em 1957 dá-se a ruptura: regressa à sua identidade judaica, abandonando o sacerdócio e a Igreja Católica. A figura de Jesus, porém, será até ao fim um polo absolutamente destacado entre os seus interesses.
É importante ouvir a explicação do autor: «As minhas investigações sobre Jesus adotam um ponto de vista muito específico. Com efeito, eu não considero o Novo Testamento como uma obra literária autônoma, sem ligação ao mundo judaico. Pelo contrário: é pelo prisma da civilização judaica, contemporânea e matriz da Igreja primitiva, que procuro descobrir o rosto de Jesus... O meu trabalho de historiador e de exegeta consiste, então, em remontar ao judeu Jesus, que comunicava à maneira judaica com os seus discípulos judeus e na sua língua própria, o aramaico.»
Na perspectiva de Vermes, Jesus não chegou verdadeiramente a abandonar os esquemas mentais e religiosos do judaísmo do seu tempo. O seu objetivo não era «romper» com Israel, nem «substituí-lo», criando uma nova religião. Jesus foi sobretudo um reformador, numa linha carismática, mesmo se um pouco ingênua. Não passou para a resistência armada como os zelotas, nem fez do seu messianismo uma bandeira política, como outros fizeram. Era, na raiz, um «homem de Deus» um pouco heterodoxo, um milagreiro disputado, completamente inscrito no judaísmo popular da época. Para Géza Vermes, a investigação histórica devolve-nos, por isso, um rosto de Jesus que é o de um carismático galileu, com uma atuação algo insólita, mas integrável dentro das grandes linhas da ortodoxia judaica. O cristianismo posterior é uma religião respeitável, contudo não acrescenta nada de essencial ao judaísmo mais autêntico vivido por Jesus.
